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Acasalar na memória...




Imagem Google


Interessante essa capacidade humana de acasalar na memória o tempo das experiências. Lembranças. Na minha tenho guardado coisas que me transformaram, desacomodaram, cutucaram e que, de algum modo, me fizeram e me fazem ser quem sou. 
Os pés descalços no quintal da casa no Fragata, os barquinhos de papel lançados às "águas" das valetas, depois de uma tarde de chuva; as luzinhas da árvore de natal; o cheiro de terra molhada e de bergamota que habitavam os dias de férias aqui no Sul. Gilberto Gil cantando "Sítio do Pica-Pau-Amarelo...", as tardes no Coração de Jesus; o canto da cigarra...
Minha memória movimenta-se em imagens, inunda-se de cheiros e de cores. Guarda palavras, pessoas...Guarda também, e não poderia ser de outra maneira, lembranças que ainda doem, que produzem raiva. Lembranças de emoções não tão acalentadoras!

Tento alguma vez capturar do meu passado, pescar da minha memória, algumas dessas lembranças que, às vezes, insistem em tomar seu lugar no presente. Sei, é uma tentativa imaginada a partir de uma realidade que namora com o fantástico, com o mágico.

Minha memória está aqui: tenho a sua imagem, ou melhor, nuanças dela.
Ela está em mim, mas de que forma estou nela?
 Não consigo "viver" a textura do papel do qual foi feito aquele barquinho que lancei na água barrenta, ainda que em minha mão o reviva através de outro barquinho cujo destino não é o de navegar em "rio" algum, porque já não é aquele barquinho e eu já não sou mais aquela menina. Posso sentir o passado, mas não posso tê-lo de volta (??). Ele chega a mim através de minhas lembranças que sempre são motivadas por algo que quem me regala é o instante: uma música, um cheiro; uma palavra dita entre tantas outras palavras; um sabor...

O instante é o que temos, por mais lugar comum que pareça essa afirmação; por mais cantada que esteja em uma psicologia placebo. Esse instante, esse agora é o que tenho realmente: estou aqui com minha alma e meu corpo; meu coração e meus olhos. E minha memória. Aberta para "gravar" esse  instante. Não sei se podemos recuperar "tempos perdidos" ou algo que negligentemente deixamos passar. O presente revitaliza o passado, assim, o que foi, quando volta, volta diferente...Nem mesmo museus são capazes de congelar o tempo; talvez cristalizem histórias através de monumentos, obras, artefatos, etc; mas seus visitadores trazem o novo com os seus olhares e curiosidade.

Não quero com esse texto fazer pensar que o passado "passado está", que nossas memórias são descartáveis e que nossas experiências acumuladas são supérfluas. Não cultuo o prazer como um fim em si mesmo, tampouco compactuo com esse sentido utilitário e imediatista da vida que tanto tem infantilizado os sujeitos contemporâneos. Mas me parece importante entender a vida tecida por outras possibilidades, com encontros que se implicam e complicam entre experiência e o novo; nostalgia e alegria; prazer e comprometimento. Sentimentos e emoções que possam ser vividas e bem "acasaladas".

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