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Sem tempos mortos...

" A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos." Trecho da Peça VIVER SEM TEMPOS MORTOS, inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir ...

Viver, movimento diário no mundo

  http://carolinebastosvicente.blogspot.com.br/2011/11/olhando-algumas-fotos-antigas-revivo.html    De uma certa forma, é positivo sentir ou provar de uma certa dose de nostalgia e melancolia. Sem desejarmos, estes sentimentos acabam por desacelerar uma rotina cheia de pressa, dão  leveza aos nossos movimentos diários no mundo... Nostálgicos e melancólicos  a vida nos chega  frágil e aguda. Multifacetada, nos cobre de lembranças, de passado. Nostálgicos, lembramos pontualmente. Melancólicos, não temos certeza do que lembramos, sentimos a memória e a vida nos dói. Assim, nostalgia e melancolia nos ajudam a sentir o presente e não perdê-lo de todo entre horas, correrias e consumo louco. Claro, lembrar não é viver. Tampouco reviver. A vida é maior, mais intensa, mais complexa. Lembranças são  colchas de retalhos em que cada quadro tem a cor de um tempo intensamente vivido;  tapeçarias customizadas com escolhas e arrependimen...

Compartilhando

"(...) porque a memória é uma bênção confusa. Mais exatamente, é uma bênção e um maldição embaladas em um só pacote. Ela pode "manter vivas" muitas coisas de valores sensivelmente desiguais para o grupo e seus vizinhos. O passado é uma bolsa cheia de ocorrências, e a memória nunca retém todas elas; o que quer que ela conserve ou recupere do esquecimento, nunca será reproduzido em sua forma "prístima" e "original" ( o que quer que isso signifique)." "(...) Relembrar é interpretar o passado - ou de forma mais correta, contar uma história com a intenção de representar o percurso de eventos passados. O estado das "histórias do passado" é ambíguo e está assim destinado a permanecer". (Bauman)

Casulo

Foto: Casulo, Ana Marques Psiu... Depois de tanto olhar para trás, ela voltou àquela janela. E como das outras vezes, sentou-se na velha cadeira a admirar o céu do final da tarde (tão dona de si; tão dona do seu tempo; tão certa do que queria.)Percorreu com o olhar o desenho irregular daquela rua, a agitação das pessoas no vai-e-vem de suas rotinas.Voltou a sentir os cheiros que até então eram ausência em seu presente. Seus olhos faziam barulho: negavam-se a perder por um minuto sequer os diários movimentos daquele mundo tão seu... Psiu... Dentro dela, sabia que algo estava diferente, havia passado tanto tempo. Fotografias do velho mundo. Nada no lugar exato. Nem mesmo ela...Difícil não desejar olhar uma vez mais a vida que agasalhava nas mãos. Mas jogo perigoso esse boomerang com o tempo. Nunca estar plena no instante, casulo do tempo vivido. Ah, o agora. Nua. Tua. Lua. Olhar para trás, outra vez... Psiu...

Acasalar na memória...

Imagem Google  Interessante essa capacidade humana de acasalar na memória o tempo das experiências. Lembranças. Na minha tenho guardado coisas que me transformaram, desacomodaram, cutucaram e que, de algum modo, me fizeram e me fazem ser quem sou.  Os pés descalços no quintal da casa no Fragata, os barquinhos de papel lançados às "águas" das valetas, depois de uma tarde de chuva; as luzinhas da árvore de natal; o cheiro de terra molhada e de bergamota que habitavam os dias de férias aqui no Sul.  Gilberto Gil cantando "Sítio do Pica-Pau-Amarelo...", as tardes no Coração de Jesus; o canto da cigarra... Minha memória movimenta-se em imagens, inunda-se de cheiros e de cores. Guarda palavras, pessoas...Guarda também, e não poderia ser de outra maneira, lembranças que ainda doem, que produzem raiva. Lembranças de emoções não tão acalentadoras! Tento alguma vez capturar do meu passado, pescar da minha memória, algumas dessas lembranças que,...