Eu gosto de pensar que os personagens dos meus filmes, livros e séries preferidos seguirão mesmo depois da última cena, do último capítulo, do episódio final.
Sentir todo final como difícil, melancólico, acho que vale para uma porção de coisas para as quais em um determinado momento precisamos dar um aceno, dizer adeus, colocar um ponto final. Por que deveria ser tão diferente se despedir da nossa série favorita? Daquele livro que a gente leva para o banheiro, porque é muito angustiante ter que esperar para saber o que "ela" vai descobrir naquela vizinhança misteriosa?
Em seguida da cena final, ali no momento dos créditos, sempre fico quieta, olhando detidamente cada nome, cada função de quem nunca apareceu na tela. Acho que sinto que a despedida não é completa se eu não puder "abraçar" mentalmente aqueles e aquelas que me fizeram sentir tão diferente do meu dia a dia. Esses seres discretos que conseguiram acalentar a minha alma por conta da bela fotografia ou me fizeram pensar para muito além das minhas "coisinhas", dos meus mimimis, das minhas preocupações primárias, por conta de um roteiro sensível . Isso de ler os créditos, faço também com os livros: quando eles terminam, começo a ler as orelhas, a contracapa. Eu preciso reter esses mundos em mim, antes que eles sigam por aí, em caminhos que se bifurcam.
Claro que o acicate da despedida não é da mesma intensidade para todas as obras. A última temporada da série preferida, sempre tão esperada, já vai deixando saudade desde o início: cada episódio que antecede o fim, já parcela uma dorzinha no peito. A gente pode ler um livro de 500 páginas em uma semana, ou em 3 meses, mas na seção final, cada frase parece dizer que a experiência incrível de ler algo que comove a imaginação, está a cada minuto mais próximo. E um filme? É montanha russa! Sem ver o tempo passar, estacionamos no final.
O final é o the end para todas as aventuras, o amor, o desamparo, a alegrias; é um ces't la vie para as incertezas e injustiças, para cada desacerto vivido por cada personagem que naquela história em particular passou a ser tão querida como a melhor amiga do trabalho ou tão desejado como a paixão que um dia se quis ter, mas que nunca se chegou a beijar. Com o final, a gente deixa de ver a nossa dor e os nossos compartilhados em outras línguas, em outros lugares, em outros sabores, em uma trilha sonora que a gente correu para ter no spotfy. Deixamos Londres, Rio, as ruas de uma cidade inventada, os cafés de cenário, os reinos e os mundos obscuros. Ficamos, também, sem a lágrima, o beijo, o abraço, o surto; a mesquinhes e o heroísmo. Ficamos sem as palavras que salvam o instante.
No último episódio da minha série do coração, baseada em uma trilogia super instigante e muito bem escrita, a protagonista diz a sua oponente: "poder sem consciência é uma arma selvagem". Em segundos, me desprendo do universo de bruxas, vampiros e demônios e me encontro com a minha humanidade; me vêm à memória uns quantos nomes que trazem o caos à vida de tantos, porque o seu poder é uma arma selvagem que mira no coração dos mais frágeis. O que fazer daqui por diante sem o que nos dizem os filmes?
O último capítulo, o último episódio é o final de tudo isso. Rever ou reler pode que não nos mova como antes: o tempo vai ciclando a vida. No entanto, eu gosto de pensar que se é final para mim, não o é para os personagens e histórias que amei. Tudo seguirá: sem meu olhar e minha atenção; sem os meus palpites e intromissões, nessa relação maluca entre história e espectador.
Eu gostaria, claro, de tomar um café todas as tardes de quinta com meus personagens preferidos; gostaria de encontrá-los na feira de sábado. Ou talvez não encontrá-los, mas poder saber que numa tarde de domingo, algum deles resolveu abrir a janela para olhar o céu. Justamente, nesse instante, sem os enredos do fuso horário, eu também abro a minha. Coincidimos ao olhar para cima, se observamos o sol ou a lua, não tem importância. O que importa é que estamos juntos, ainda que a série tenha terminado na sexta ou que me falte meia página para terminar o livro.
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