Ela cozinha. Pedacinhos de bacon... Gemas, creme de leite, cebola. Noz moscada (sim, colocarei noz moscada). A água ferve na panela. Faz calor, apesar do vento primaveril que sopra entre os fios elétricos. Pela janela aberta uma música entra casa adentro e passeia por cada cômodo, por cada móvel, cada objeto... Agora, ela dança pela cozinha com a faca ao alto, no ritmo da música visitante e do assobio do vento.
- Te quiero...Es lo que siento... (Posso guardar cada momento com gestos tão simples).
Já não passeia pela casa a mesma canção. Ela deixa de dançar. Uma voz rouca se mete entre o fogão e as panelas; entre os cheiros que percorrem a cozinha...
“… de sobras sabes que eres la primera…”
Deixa cair a faca...Deveria fechar a janela (sim, tenho que fechá-la). Mas, não a fecha!! Novamente aquela borboleta solitária dança labirínticamente entre seu peito e estômago. Sabina canta "...porque una casa sin ti es una emboscada...y sin embargo cuando duermo sin ti, contigo sueño..."
Ela se apoia na parede e fecha os olhos. O frio dos azulejos lhe envolve o corpo...
- Estás en mí ( um olhar aguçado que lhe acolhe o corpo, os lábio úmidos, o sabor de sal e menta em sua boca).
Segue a música: "...porque una casa sin ti... un laberinto sin luz ni vino tinto..."
- Estás en mí ( a força das tuas mãos aprisionando minhas cadeiras, los jadeos bajo su peso...Teu cheiro...Un te quiero, dois, três...).
A música se distancia: "...y cuando vuelves hay fiesta en la cocina...y ramos de rosas con espinas..."
- Maldita cebola! Ela diz, limpando os olhos...

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