Era uma vez um reino bem escondidinho, cuja geografia ninguém sabia ao certo. Há quem chegasse a pensar que, a cada tempo, tal reino iria mudando suas fronteiras, para que jamais fosse possível precisar seu paradeiro em um mapa, tampouco na memória. Um reino sem estandarte definitivo: dependendo da estação do ano poderia vislumbrar-se, tremulando, nas mais altas torres dos castelos, diferentes bandeiras: no verão, as tinham azuis como costumavam ser azuis as águas cristalinas de seus lagos; no inverno, as bandeiras continham desenhos da geada do amanhecer e na primavera tremulavam vestígios de flores e andorinhas. No outono, as bandeiras não ostentavam símbolo algum, pois, no reino, era o tempo das folhas secas, caídas...
Nesse reino de localização incerta, viviam felizes um rei e uma rainha e seus - vai lá - três filhos. Nada lhes faltava, ainda que lhes sobrasse pouco. Mas não se queixavam...Era um reino de poucos ruídos e muitos silêncios. De segredos, mas de janelas e portas abertas (já que os segredos, como todo bom segredo, são invisíveis...). No reino costumava-se cultivar cogumelos e morangos e canteiros de jasmins. Um lugar de vida simples, "porque a vida simples quase sempre é boa..."
Entretanto, nesse conto como em todo aquele que se preze, não será possível abrir mão daquele personagem que apimenta, o sabor de fada e açúcar, que todas as histórias que assim iniciam possuem. Muito menos se conseguirá evitar àqueles momentos tensos e doídos, onde "malvados" parecem conseguir fincar bandeira no terreno alheio e destroçar sonhos. Neste, tal personagem mais malvado que a maldade infinita também estará em cena...
Desse modo, surgirá uma bruxa invejosa que jamais pôde admitir que nesse reino distante de gentes anonimamente felizes tudo estivesse às mil maravilhas. Ela armará um plano perverso para dividir e, assim, vencer. Sua equação criminosa será bem simples : a rainha adoecerá, em seguida o rei. Os filhos terão que buscar uma poção encantada para poder restituir-lhes a saúde e a tranquilidade do reino . Nesse ínterim, a bruxa tomará o poder - como costuma acontecer em mil histórias de reis, princesas, aventuras e finais felizes. No entanto, nesse conto, as coisas serão bem diferentes: a bruxa terá seus percalços...
De fato, a rainha adoecerá misteriosamente; o rei em seguida. Desesperados, os filhos consultarão os magos do reino, que, encantados pela perversa bruxa, dirão em tom fúnebre: " - O Rei precisa para sua saúde voltar, uma flor cheirar. A flor bela encontrar-se-á na montanha mais distante do reino e só colhida será pela alma mais nobre que há."
Os filhos homens do rei e da rainha partirão sem pestanejar. Sem muito tempo para pensar na comida que levarão, quantos soldados os acompanharão e que plano articularão para vencer a maldição. Como impulsos não são bons conselheiros e desgraça pouca é bobagem, os filhos varões do reino não darão cabo do desafio.
Longo tempo se passará até que se perca a ilusão no regresso dos príncipes com a flor bela...A vida no reino navegará entre a preocupação, a inércia e a nostalgia. A bruxa terá reelaborado seu plano, criando hostilidades entre o Reino de Geografia Incerta e os reinos vizinhos. Dias grises e de solidão para todos.
Entretanto, lá no iniciozinho dessa história, leu-se que o rei e a rainha tinham três filhos...E que fique agora esclarecido que eram dois varões e...uma menina!! Uma princesa, necessária em todo e qualquer conto. Uma princesa que, como todas as princesas, terá sido educada para bordados, bailes, frivolidades... E para esperar. Esperar ser salva do dragão, o sapo virar príncipe, um beijo que a livrará da morte...
A princesa desse conto também não fugirá à regra: viverá seu conto de fadas até onde lhe seja possível e esperará. Primeiro que seus pais melhorem; depois que seus irmaõs regressem, por último um milagre. Quase bíblico ( nãos misturemos os assuntos...)
A princesa desse conto, numa manhã de cara emburrada, se sentará no último degrau da última escada do reino não mais encantado e irá sentir-se oceanicamente só; trará para si memórias felizes de dias que já não voltam mais e se afundará no desespero. Irá chorar tanto, mas tanto e tão alto, que seu pranto será ouvido à longas distâncias. Depois, limpa de seus medos e de suas açucaradas ilusões, dará o primeiro passo, o segundo, o terceiro, e assim todos os passos necessários em direção à fronteira esquerda do reino e a sua própria libertação. Num reino vizinho, encontrará pessoas dispostas a escutar sua história e a estender-lhe a mão. Falará a verdade e fará amigos que, com ela, somarão esforços para derrotar a bruxa e restituir o poder do reino a seus pais...
A princesa desse conto descobrirá a força que pôde nascer de sua fragilidade...Organizados, preparados e conscientes, a princesa e seus amigos resgatarão os irmaõs varões do reino e a flor bela. De posse da flor, os monarcas reconquistarão a saúde e à bruxa não lhe restará outra alternativa que não seja a de desaparecer para ressurgir em novos contos.
A vida no reino de fronteiras imprecisas não voltará a ser como antes. Nada, nem mesmo pessoas podem voltar a ser como antes. A vida sempre se reedita, mas com novas cores e circunstâncias. Ciclos se fecham, para que outros sejam abertos. E assim será para o reino, para os reis e seus filhos, para a princesa... Nada se perderá, tudo será transformado.
E final feliz é uma questão de ponto de vista, bem como é melhor beijar um príncipe e esperar que ele vire sapo. Porque a nossa escuridão também é a nossa verdade...
"Y colorin coloresos todos-todos se dieron miles de besos..."
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