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Amanheceres...





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Alguém pode chegar a pensar que não seja possível ver o mundo desde a janela de minha casa. Não me preocupo com isso. Há certas coisas que perdem o sentido quando as explicamos. Pode acontecer de que sem sair se saia e que sem entrar se esteja sempre encerrado no mesmo lugar .

Eu levo um tempo observando-a. A manhã que vai chegar prepara tudo antecipadamente. Já ao entardecer, se despe em cores de um casulo...Espreguiça-se e coloca uma fita no cabelo, uma camisa velha do tipo que usamos quando pintamos nossa sala de várias cores. Sonha que voa e acompanha o vento. Sem pressa, sem cronometrar o tempo, sem buscar vencê-lo. 
Quando acorda toma um longo banho. Café puro, sem açúcar...
Olha através da janela o infinito, como se pudesse adivinhar o que mais tarde passará, soprando a bebida quente, nesse dia  tão esperado. 
Jazz. Paixão.

Amanhecerá. Ela entrará pela minha janela de vidros embaçados. 
Vejo-a aproximando-se. Entra através das vidraças como se acariciasse seu corpo. Olha a casa como se fossem os lábios de um amante. Esparrama-se  aveludada e silenciosamente. E voa até quem sabe onde, com o corpo ardente de  mulher sob suas asas. 
Uma mulher que não se impõe limites, que caça as suas presas sem que seja de fato predadora, que ama sem compromisso e que se encontra no sexo.

Não sempre, mas, numa manhã dessas, consegui vê-la dançar, sobre as cobertas, com uma de suas presas.

Dançam surpresos um do outro, pouco tempo têm para pensar...
Bailam carícias, correm em busca de recantos secretos, os gemidos aceleram-se...
As peles marcam-se sutilmente e os corpos acompanham-se, movimentos, temperatura e fluidos... 
O sexo atropela as sombras e o tempo parece infinito. No final estão esgotados, enredados e imóveis...

Outras manhãs amanhecerão entre eles.
Despertarão como se tudo tivesse sido sonhado, como se suas lembranças  estivessem tatuadas em seus cérebros. Poucas palavras trocam. 
Mostram-se confusos, no entanto há uma frase que repetem....











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