Fui ver "Viudas", do diretor argentino Marcos Carnevale. O argumento é uma conversa do cinema com estes binômios fantásticos: amor e traição, dor e luto, perda e enfrentamento; solidão versus solitude. Pessoalmente, gostei, é um bom filme, do tipo que te leva ao cinema na tarde do primeiro dia do Ano Novo, em uma Porto Alegre cinzenta, chorona de chuva e vazia de gentes.
Ri, pensei, gostei da música...Mas saí com a sensação de que a tal "conversa" com os velhos clichês da nossa complicada humanidade pedia mais fôlego, mais sal e pimenta, mais provocação...
O argumento central é a morte de Augusto, marido de Elena ( a estupenda Graciela Borges) e amante de Adela ( Valeria Bertucelli) que sai desse triângulo amoroso depois de um infarto e com um inusitado pedido a sua mulher: "Cuidéla, porque está sola" (algo do gênero). Desse ponto e ao longo do filme, os encontros e os desencontros dessas duas mulheres tão diferentes, e ao mesmo tempo tão mulheres, será marcada por essa maldita frase...De Augusto e seu leit motiv para viver uma vida ambígua, pouco se saberá. Talvez, as poucas informações que se percebem é de que foi um homem bom, muito bom. E, na mesma proporção, muito amado (!)...Vaya..., para minha porção e concepção pequena burguesa de vida, o homem é, no final das contas, um tremendo hijo de puta.
Ri, pensei, gostei da música...Mas saí com a sensação de que a tal "conversa" com os velhos clichês da nossa complicada humanidade pedia mais fôlego, mais sal e pimenta, mais provocação...
O argumento central é a morte de Augusto, marido de Elena ( a estupenda Graciela Borges) e amante de Adela ( Valeria Bertucelli) que sai desse triângulo amoroso depois de um infarto e com um inusitado pedido a sua mulher: "Cuidéla, porque está sola" (algo do gênero). Desse ponto e ao longo do filme, os encontros e os desencontros dessas duas mulheres tão diferentes, e ao mesmo tempo tão mulheres, será marcada por essa maldita frase...De Augusto e seu leit motiv para viver uma vida ambígua, pouco se saberá. Talvez, as poucas informações que se percebem é de que foi um homem bom, muito bom. E, na mesma proporção, muito amado (!)...Vaya..., para minha porção e concepção pequena burguesa de vida, o homem é, no final das contas, um tremendo hijo de puta.
Elena e Adela são as duas faces, literalmente, que fazem uma moeda: cara e coroa. O tempo ou idade como preferirem é o que, sobretudo, as distingue. A cara, Adela, é a jovem amante; sem emprego fixo, estudante errante de Jornalismo, vivendo em um "departamento pobre del barrio oriental" alugado por Augusto, seu centro e tudo na vida...O que me fez pensar se é possível confundir o amor com qualquer outra coisa que não ele mesmo quando a dependência é a tônica de uma relação. Há espaço para o amor quando se precisa tanto, se têm tantas necessidades? Adela necessita, depende; não tem para onde ir, não sabe se quer ficar...Não sei se faz escolhas. Como uma versão feminina de Peter Pan, sinto que a personagem, como mulher adulta, se infantiliza nesse universo de dependência afetiva. Entre a morte de Augusto, uma tentativa de suicídio e gravidez inesperada, caminha Adela pelas ruas de Buenos Aires, pela vida, pela casa de Elena.
A coroa, Elena, encantador personagem da atriz Graciela Borges cujo trabalho torna plausível um texto que, dado os matizes da história, poderia chegar a ser caricato. Elena é forte, independente e, ainda que se debata entre a fúria e a dor após a morte de Augusto, é generosa... Elena acolhe Adela em sua casa. Cuida dela. Talvez um último e singular gesto de amor em relação a Augusto. É no jogo discursivo entre as duas personagens femininas, com suas tensões e silêncios, rejeição e solidariedade, culpa e dor que o filme ganha seu vigor...Uma pena que tenham sido tão poucas aproximações. Certo é que "juntas", Adela e Elena, e na ausência de Augusto, terão que ressignificar suas histórias; tentar saber quem foram, quem são e o que farão em uma situação jamais adivinhada por uma, nunca ignorada por outra...Imaginar que prosaico par de viúvas formam, afinal...
Viudas é uma comédia dramática...Um gênero que alguns diretores latinoamericanos e espanhões sabem utilizar tão bem: por meio do humor, em medidas precisas, escancarar coisas e possibilidades que vistas em Sessão de Terapia, por exemplo, seriam tão doídas, ácidas. Acho que o riso, sem com isso perder a ternura, é uma forma inteligente de tocar nossas insanidades, provisórias ou permanentes, e pode sim, a partir das provocações que propõe, nos ajudar a tentar dar conta dessa complicada conexão entre consciência e afeto. No filme, a proposta, acredito, está em fazer pensar sobre as assimetrias do amor e suas implicações e sobre relações assimétricas e suas carências. Uma proposta ousada e como já escrevi no início, pessoalmente, poderia ter sido mais profunda. No entanto, em tempo de tantas banalizações, tentativas sensíveis são sempre válidas e belas...
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