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Pececitos

Minha memória é como um cardume de peixinhos coloridos que dança inquieto pela água. Desliza tão rápido, não consigo segurá-lo entre minhas mãos. Minhas lembranças são cardumes que nadam contra a corrente; viajam para tão longe...no tempo. Ontem, tentei pescar uma lembrança e, quando quase consegui, ela com suas escamas brilhantes, devolveu- uma imagem difusa. Deixei-a ir, livre, nadar com suas companheiras. Quem sabe, um dia, enquanto ando descalça por novas praias, eu e a lembrança nos reencontremos e ela possa contar-me algo da mulher que fui... Ou da pescadora que tentou fisgá-la com iscas artificiais, mas resignadamente deixou-a partir. 
Não durmo. (tictactictactictac) Acho que não me deixam dormir Ou, então, dormir não sei (tictactictactictac) Noite, Ensina-me a adormecer Fora do teu peito E prometo Arrumar as botas Atrás da porta E não mais fazer Barulhos com os olhos

Ventanas

Valeria uma análise discursiva sobre o significado simbólico das janelas da nossa casa, nestes dias de quarentena por conta da propagação da covid -19. Elas vestem-se da metáfora de "janelas da alma". Estamos em autoisolamento. Confinados em  casa,  ver o sol bater na janela do nosso quarto nunca foi tão bonito e melancólico, ao mesmo tempo. A vida social, o partilhar ruas, parques, praças, praias, cafés e bares, nos está proibido. Na velocidade da luz, tivemos que entender que o convívio é um risco que não se pode assumir se quisermos chegar juntos ao final dessa crise: nós e nossos afetos. Reclusos estamos tentando aprender a lidar com o tempo que temos para viver tudo o que antes não tínhamos tempo para viver...Despertamos e dormimos entre as mesmas paredes, como os mesmos rostos ou sem rostos para ver. Reinventamos rotinas, banais e profundas; a mente se distrai ou se obstina com a ideia de romper o cerco, porém as notícias que chegam devastam as tentativas de imaginar q...

"No dejes que las apariencias te engañen porque no son más que máscaras".

Sou morena entre loiras, ruivas e negras. Minha alma é distraída: só se encontra na imaginação. Tropeço nos meus próprios pés. Trabalho com o que amo. Tenho pequenos luxos, minhas bondades e um tantinho de poeira para esconder embaixo do tapete.  Quem não a tem? Vícios? Confessáveis: chocolate, livros... Gosto das manhãs; o pôr do sol me deixa triste. Gosto de ficar de pijama e  andar pela minha rotina, sem fazer nada, dona do meu tempo. Leio Julio Cortázar, mas também literatura best-seller  Gosto de casaquinhos de lã, dos meus pés descalços na areia; Gosto de praia, do mar com ondas, mas da água calma da piscina,  No verão ou no inverno, gosto de sentir o vento  no cabelo, a areia nos pés. O cheiro da  maresia...me faz sentir saudade. Eu gosto das tempestades. Gosto de surrealismo,  de Realismo Fantástico,  de “Alice no País das Maravilhas”. Aprecio a reciprocidade, a cumplicidade. Amo dirigir. Um sa...

E quando setembro chegar...

Eu gosto de setembro, da sua luz e da sua cor. Gosto de janelas abertas, de gente na rua, de florzinhas amarelas que nascem livres no campo, entre uma casa e outra. Gosto do burburinho das pessoas à noite. Eu gosto de setembro pelo que significa: primavera, dias mais quentes, noites cheirosas e olhos que dizem: "eu te vejo"!! Setembro tem cheiro de maçã, sabor de vinho novo; sedução no ar e sons de circo. Setembro tem aniversários: das minhas irmãs, de gente de quem gosto. E  têm amigos que passeiam comigo no final da tarde. O céu se pinta de laranja, de azul... Hasta la vista cinza.  Vestidos balançam,  unhas vermelhas,  boas intuições... Setembro, ah, quando chegares!

Trem

Serás sempre a vidraça do trem que me atravessa os dias a quilômetros por hora. Ou o meio metro de nó, sem corda, que prende o limoeiro à flor. Não tenho passagem. Queimei todas as viagens em aviõezinhos de papel... No entanto, alguém tinha inventado o trem.  E lá no peitoril, esquecido na poeira da casa, estarei eu: debruçada, do lado do lado de dentro do trem que corre veloz; na medida férrea das linhas das mãos que guardam bagagens sem destino... O desespero da locomotiva que morre a cada estação  é apenas o adeus de quem  não pode trocar de mundo.

Julio, um modelo para amar

Julio viveu em metáforas, nunca em aquários que protegiam rotinas... Ao contrário, convidava ao jogo, ao lúdico, à amarelinha. Deixar o inferno, alcançar o céu, chegar  a la Isla,  mediodía en punto. Cortázar contou-me  que o amor pode acontecer  nas  autopistas do sul,  do norte... E m todas as estações, sem destino, No tempo possível quem sabe? O tempo do coração. Todos os fogos ardem el fuego  suas criaturas  sussurram  Julio,  te queremos tanto!  A flor amarela,  Sem instruções, Aprendemos! . Cortázar batizou-me como leitora, deu-me  a rmas secretas para ressignificar  palavras, Sob a luz de La Maga. Pelas deshoras do tempo, o cronopio, renasce, como um verdadeiro perseguidor. Acaricia um gato, escuta, é jazz... Haverá sempre mandalas meopas no tabuleiro de xadrez